Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



David Lean e a natureza como metáfora da vida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.08

 

Vi um documentário, nos anos 90, creio que na RTP2, em que David Lean nos conta como as opiniões ferozes de alguns críticos o afectaram. Aquele homem ainda belo e de ar aristocrático, deu-nos Brief Encounter, Great Expectations, Ryan's Daughter, A Passage to India (os meus preferidos). E o público aderiu ao Lawrence of Arabia e ao Dr. Zhivago. Estas críticas deixaram marcas em David Lean: uma inibição temporária, de alguns anos, até voltar a realizar. E no entanto, as soluções com que mais implicaram eram, a meu ver, as soluções mais criativas e ousadas! É Cinema-arte! David Lean utiliza frequentemente a natureza como metáfora da vida, dos sentimentos, das emoções. Lembram-se dos ramos ameaçadores daquela árvore centenária nas Grandes Esperanças? Do vento nos ramos das árvores a substituir-se à visão dessa paixão, na Filha de Ryan? Ou das grutas misteriosas na Índia, que tanto perturbaram a rapariga inglesa?

 

Mas também é exímio na montagem, como também foi referido no tal documentário que registei para sempre. A importância da montagem, no cinema, é também uma das lições que os seus filmes nos dão. Neste documentário David Lean exemplifica-nos, através de uma cena, todos os planos em sequência. Uma sequência perfeita.


E voltemos à Índia filmada por David Lean, aos encontros culturais, às sínteses possíveis, outras impossíveis... à modificação vitalícia de uma rapariga inglesa que percebe a tempo que a perturbação é apenas sua e à modificação vitalícia de um homem simples que se deixará levar pelo delírio da revolta.

Fascinante como consegue mostrar por dentro, e de uma forma tão poética, as diversas percepções culturais: da vida, do amor, das pessoas, do mundo. E de como não são apenas as percepções que as distanciam (as duas culturas), mas também as suas prioridades, os seus valores, os seus princípios. Em comum, o desejo profundo de serem respeitadas na sua especificidade. David Lean tenta entrar por aí, procura a razão dessa dificuldade, e a saída possível para esse dilema. E tudo vai dar ao poder e como ele se exerce e como interfere na vida das pessoas. Tudo vai dar aí. Pudesse esta rapariga falar abertamente do que a perturba, a alguém calmo e sensato, e tudo se teria resolvido naturalmente: é assim que os equívocos melhor se esclarecem. Há uma velha senhora inglesa que pressente tudo isto e que gostaria de ter evitado tudo o que se seguiria. Mas tal não será possível. A comunidade inglesa é logo envolvida e todos sabemos como estes assuntos são tratados, com a abordagem errada (e à dimensão errada).


Mas voltemos atrás: à perturbação da rapariga inglesa. Como o contacto com uma cultura exuberante e sensual a modificou para sempre. Ou como simplesmente libertou uma parte de si própria que tinha reprimido, ou que até talvez desconhecesse... Aqui David Lean recorre de novo à natureza como metáfora: os monumentos que desvendam toda a sensualidade possível, todas as possibilidades de expressão da vida quando se liberta...
Nesse piquenique perto das grutas, o homem simples sente-se todo orgulhoso no seu papel de guia. Mal pode sequer adivinhar que em breve será humilhado e acusado injustamente. De novo David Lean a recorrer à natureza: grutas labirínticas, onde os ecos, aumentados, entram pelo corpo dentro, até invadirem todas as moléculas e deixarem a rapariga a tremer. É de medo do seu próprio desejo que a rapariga treme. É de medo de si própria, no fundo, que grita desvairada.


O recurso à natureza é a marca registada de David Lean. Ele é o mestre. Além da elegância da fotografia e da montagem. E do enorme respeito pelo espectador que nunca trata como voyeur. David Lean é um dos melhores de sempre. Um gentleman do cinema. De alma aristocrata.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:45

Todo um manual de cinema num breve encontro

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.12.08

 

Resolvi aproximar-me timidamente desta obra-prima de David Lean: Brief Encounter. Lembrei-me dele por nos estarmos a aproximar de mais um Natal. Um Natal mais tímido, talvez mesmo mais triste, mas também mais autêntico (pelo menos sem a barulheira histérica de Natais recentes). Claro que eu preferia ver à minha volta toda a gente feliz e próspera! Mas já que temos de encarar uma situação precária e incerta, então que aproveitemos para parar e reflectir no essencial. Essencial que está dentro de cada um de nós: a nossa capacidade de amar. Não estou a propor um brief encounter como solução para todos os males (embora seja uma das soluções mais criativas), mas a ver o amor sobretudo como a capacidade de amar, a maravilhosa sensação de estar vivo!


Tudo começa numa estação de comboios, magnífica metáfora para a vida, como já o disse aqui. Daqueles comboios dos anos 40, com fumo misterioso (tão cinemagráfico!) e o apito estridente! Temos o cenário ideal para os nossos heróis que estão prestes a ser surpreendidos por uma partida da vida. Ela é uma mulher da classe média, casada e com dois filhos, vida calma, organizada e acolhedora, muito à inglesa. De vez em quando vai à cidade (Londres?) às compras ou simplesmente para se distrair. Nessa noite, em que mais uma vez regressa a casa, tudo vai ser diferente. Um simples cisco de uma fagulha num olho, leva-a a voltar, aflita, ao bar da estação e a pedir ajuda. E é um médico (ele) que lhe retira o cisco incómodo. Sim, o gesto mais natural deste mundo. Só que, de imediato, surge entre eles uma afinidade estranha, um magnetismo qualquer, porque combinam encontrar-se de novo ali, na estação.


Estação de comboios = intervalo das suas vidas, espaço-tempo onde contarão as suas histórias, falarão das coisas simples que a mais ninguém se dizem. A magia do amor atinge-os em cheio. Já não lhe podem escapar. Bem, estamos nos anos 40 e numa sociedade muito convencional. Não se admirem, pois, se os virem hesitar em avançar na aventura! Hesitam e não ultrapassarão aquele limite a partir do qual seria mais difícil voltar atrás.


Triste triste será a decisão da despedida. Ele seguirá para África onde poderá dedicar-se à sua medicina (já não me lembro bem se na prevenção, um dos sonhos que lhe confiara, se no tratamento de doenças infecciosas). Ela voltará à sua vida tranquila, organizada e familiar. Mas mais triste ainda será a despedida, porque são interrompidos, de forma brusca e indelicada, por uma conhecida da nossa heroína que fala pelos cotovelos. Nem aqueles últimos minutos serão deles... isso é o mais triste de tudo. Aqui David Lean consegue deslumbrar-nos (ou lembrar-nos?): momentos de uma tristeza assim, insuportável, avassaladora, que nos invade até à última célula! O som estridente do aviso da partida do comboio... ele toca-lhe no ombro, ao de leve, e afasta-se... Para sempre. Será assim a sua despedida na estação.


Comboio = a vida, vidas que se perdem, vidas apeadas, vidas à espera, vidas que se cruzam, vidas que partem, vidas que ficam... A mulher tagarela continua no seu monólogo, insensível a tudo, uma voz irritante como conhecemos tantas. A nossa heroína contém as lágrimas. E então outro recurso de David Lean para nos mostrar a dor insuportável destes desencontros emocionais e afectivos: já no comboio, sobrepondo-se à voz da mulher, acompanhamos os pensamentos da nossa heroína. E vemos o reflexo do seu rosto no vidro da janela, enquanto o comboio se desloca e os distancia cada vez mais.


Quando voltarem a este filme, reparem bem no cenário, nos planos, no preto e branco, nos recursos poéticos de David Lean, no som estridente do apito do comboio, no fumo misterioso que os envolve... E digam-me se não estamos perante uma obra-prima que é todo um manual de cinema quando o cinema se ultrapassa a si próprio. E isso é arte! É arte viva!


A cena final é de novo muito inglesa: uma vida em que tudo é rotineiro, que contrasta com essa outra possível, de emoções fortes. O marido comenta vagamente que a achara diferente nos últimos dias e que estava contente por ela ter voltado. A tranquilidade de uma vida acompanhada, prevista, sem sobressaltos. Um marido fiável e compreensivo. Cada um no seu sofá,
os miúdos já deitados. Não sei porquê, esta cena lembra-me sempre o Natal: chegar a casa ou, neste caso, voltar a casa.

 

 

 

Obs.: Na noite em que alinhavei este texto sobre Brief Encounter, realizava-se "uma cerimónia de homenagem a Celia Johnson" (P2 do Público, 22/12) pelo centenário do seu nascimento (18 de Dezembro de 1908). Adoro coincidências...

 

Dias depois: Olhem só o que descobri hoje (dia 26)! Uma fotografia no Atlântico, desse breve encontro! Com um texto tão poético e nostálgico!

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:34

O olhar acusador que reduz e anula

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.12.08

 

Baby the Rain Must Fall: Um homem inquieto, ainda rapazinho no fundo, embora com mulher e filha e um currículo de delinquência. Período de liberdade condicional e também de recuperação (condicional) da jovem família.
Genial é a forma como se filmavam, na época, estas histórias, de vidas simples. Os planos, as sequências, o poético preto e branco... Já não se filma assim. A casa de uma família a tentar recuperar, inicialmente tão solitária naquele campo perto da estrada, onde a pouco e pouco se vão plantando árvores e até um pequeno jardim. Como se estivessem a “fazer o ninho”. Gestos que dizem tudo. A simplicidade dos gestos.

A comunidade é acolhedora para a jovem família: há um homem amável, que os ajuda a instalar-se; há uma mulher maternal que ficará com a criança na ausência da mãe, quando esta encontra trabalho; e uma colega que lhe explica como tudo funciona e a quem ela fala da sua frágil esperança.


A liberdade condicional é um período de transição para uma vida responsável, que o homem não está preparado para assumir. Há nele uma rebeldia adolescente: recusa-se a voltar a estudar e quer manter-se a tocar na banda, mesmo contrariando as indicações da mulher que o criou.
A mãe adoptiva deste homem representa aqui o poder rígido, que não dá uma segunda hipótese, o olhar hostil e reprovador que reduz e anula. Dizemos que este poder distante deixa uma pessoa sem saída. E é o que acontece a este homem. Interioriza esse papel de rebelde e fica colado a ele. Mesmo sabendo que está a pedir sarilhos.


Impressionante como um simples plano nos pode mostrar a forma como este homem se sente intimidado e até ameaçado por um poder que interiorizou, que a mulher idosa ainda exerce sobre si. A forma como olha para aquelas escadas na penumbra, paralisado de medo, gelado por dentro. Nesse preciso momento ele é a criança que foi, sempre esmagado pela sua acusação. Vemos, naquela expressão (é o papel de Steve McQueen, a meu ver) um homem encurralado.


Escadas que se sobem = metáfora para o poder que sobre nós se exerce (ou que nós aceitamos?)
Já em The Little Foxes havia um plano magnífico com escadas. Vemos a mãe dominadora lá em cima e uma jovem, aparentemente frágil cá em baixo. Mas a jovem não sobe as escadas, está de saída. Mesmo quando o plano muda, e é filmada de cima, vemos na sua expressão a recusa em aceitar o domínio da mãe, a afirmação da sua autonomia. Aliás, inverte-se a situação: a mãe é a frágil, afinal, a dependente, a que precisa de manipular.
Aqui não. O homem paralisa. O homem está para sempre marcado por essa acusação constante.


Terrível o olhar acusador da velha mulher que o criou! Mesmo no fim da existência, aquela reprovação final: Não prestas. Que ele aceita como um veredicto. Mas não com alívio. Porque esse veredicto fica a massacrar-lhe a vida. Para ele, a morte daquela mulher acusadora não o liberta. Por isso encontrá-lo-ão uma noite, no cemitério, absolutamente desesperado, a destruir as flores da campa.


A esperança de um segundo fôlego para a família recentemente reunida perde-se. É o rosto de um rapazinho vulnerável e assustado que a mulher irá visitar à prisão. Será também uma lógica infantil que o inspirará a fugir, quando o deixam despedir-se da filha.
Tão poético aquele final, uma mulher que leva a mala para o carro, uma casa que fica vazia, uma árvore ali plantada como a esperança de uma família em vida nova... esse plano da pequena árvore é absolutamente fabuloso. O homem adulto e amigo, e que os ajudara nessa fase de adaptação, ajuda-as agora na mudança para um novo lugar. Por coincidências desta vida, ainda se cruzarão com o carro da polícia que transporta o marido preso.
A mulher aceita tudo filosoficamente (fabulosa Lee Remick!) e brinca com a filha: Somos muito viajadas...


É este o cinema-arte que me prendeu, também a mim, para sempre. A linguagem dos simples gestos, de diálogos depurados, de planos poéticos, e tudo a preto e branco. É a época dos sentimentos e das emoções, dos conflitos interiores e das questões morais. As personagens têm a dimensão humana: alegria, sofrimento, medos, angústias, esperanças... a sua fragilidade e a sua incrível coragem.
A forma filosófica como se encara um amanhã incerto. Esta é a eterna beleza do cinema, lembrar-nos que (ainda) somos humanos, (ainda) não cortámos as raízes, (ainda) nos comovemos com a vida.


Quanto à personagem-“homem rebelde”, o eterno adolescente inquieto: teremos de o ver pelo ângulo daquele olhar e daquelas palavras que não deixam escapatória: Não prestas. É assim que se formam lógicas de percursos auto-destrutivos. Quando o poder se afirma assim, de forma rígida e absoluta, não dá qualquer hipótese ao outro de se redimir ou escolher outro percurso.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:05

Saraband

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.12.08

Quando comecei a alinhavar um texto sobre Saraband, coloquei-o de lado com a sensação incómoda de não o entender, de não apreender toda a sua dimensão. Mais tarde, decidi avançar: nunca conseguimos apreender a ideia de um autor (aqui, do realizador, Ingmar Bergman). É sempre a nossa perspectiva, o nosso olhar que prevalece. Pode modificar-se, pode até aprofundar-se, mas é sempre o nosso olhar...

 

Ingmar Bergman é um homem do Cinema mas é, antes e acima disso, um homem do Teatro e das Personagens. Pelo menos, é assim que o vejo.
O meu Ingmar Bergman é o do Cinema, o dos morangos silvestres, o desses filmes quase medievais e misteriosos, de um mágico preto e branco... Filmes de diálogos numa língua estranha, de lugares ligados ao princípio dos tempos.
A partir dos anos 60, volta-se cada vez mais para as personagens e para o teatro. Consegue escavar pela alma humana dentro, de um modo que nos deixa desarmados. As personagens revelam a sua parte oculta, subterrânea. É implacável, quer desvendar tudo.
Comparativamente a tanta dor e violência, este Saraband até nos soa suave, tranquilo... mas não é nada suave e muito menos tranquilo...


Primeiro, vi a incomunicabilidade humana, um grande deserto.
Depois, uma diferença (intransponível?) entre duas naturezas aqui tão distintas: a masculina-desejo e território e a feminina-afecto e comunicação.


Retomo aqui o fôlego, porque a tarefa é difícil, pelo menos para mim. Ingmar Bergman é um génio, no sentido mais antigo e medieval do termo, no sentido mais terreno. O mundo que os seus filmes nos revela é um mundo de florestas sombrias, onde não entra o sol, um mundo de lagos aparentemente quietos, mas em que se adivinham tumultos. Como em Saraband...

 

Em Saraband Ingmar Bergman é sobretudo implacável com a natureza masculina. Em Johan: o lado racional que começa a fechar-se a tudo e a todos; para quem o desejo é a base de uma relação e também uma forma de se proteger do medo da saída de cena; que alimenta ódios e ressentimentos que utiliza para provar o seu poder sobre outros (domínio territorial?, forma de confirmar que ainda está vivo?).
E a personagem mais difícil de aceitar: Henrik, o filho de Johan, o homem que se encolheu a um canto, que desistiu de viver e se apoiou e pendurou na própria filha, colocando-a no lugar impossível da sua mulher morta. O egoísta, o dependente, que recorre às estratégias mais humilhantes para manter a companhia e a atenção constante da filha, querendo tornar-se necessário, imprescindível mesmo.


Implacável com a natureza masculina e incrivelmente amoroso com a natureza feminina. Aqui, numa visita à sua alma profunda: a sua bondade genuína e a sua generosidade sem limites. Enquanto o homem se fecha e se torna inacessível ao afecto, a mulher expande a sua compreensão. A mulher vê, entende, aceita. E, além de perceber, age.


Marianne quer salvar toda a gente, Johan, o ex-marido em primeiro lugar. Mesmo que isso ainda a magoe, sobretudo o silêncio, que é mais fácil de suportar à distância mas que é intolerável na proximidade. Marianne hesita à porta do terraço e fica a olhá-lo a dormitar, subitamente velho, subitamente vulnerável. Mas é um homem fechado em si próprio que acorda. Não é envolvente o olhar que a recebe. É um olhar fugidio e um riso nervoso. Tudo nele a gritar não devias ter vindo. E tudo em Marianne a dizer estou em paz, porque não consegues estar em paz também?


Há uma tristeza profunda em Marianne. As mulheres aprendem a aceitar o inaceitável, a meu ver. Vão para além dos seus limites para salvar alguém, mesmo que esse alguém apenas queira ser deixado em paz. E daí talvez não. Talvez Marianne tenha ouvido o seu grito de socorro silencioso. Mas mesmo que a sua conversa seja amena, Johan é-lhe inacessível. Todos o incomodam, aliás. Alimenta o ódio e desprezo pelo próprio filho. Não aceita a morte da nora por quem certamente terá sentido alguma atracção. Quer apoiar a neta, mas ficamos sem perceber se é para a libertar, para a ver autónoma e feliz, se apenas para ferir o filho.
Marianne evita julgá-lo. Ouve, tenta sensibilizá-lo e, quando vê que não é possível, aceita. Pura e simplesmente. Parece resignação, mas é outra coisa. Marianne aceita a natureza de cada um sem julgar.


Todos os diálogos são impressionantes. Mas nenhum tão intenso e doloroso como o de Marianne e Henrik. Aqui Marianne vê, talvez pela primeira vez, a dimensão do ódio neste homem sofredor. Sofrimento que talvez tenha nascido do convívio com um pai frio e egoísta, que gostava de o humilhar. Este homem sonha com a morte do pai. Como se essa morte lhe desse, a ele, a vida!


Aqui as mulheres resistem melhor, talvez porque a sua base, o seu suporte, não seja a agressividade ou a violência. Em Marianne é a sua capacidade de amar e de aceitar a natureza humana sem a questionar. Porque aceita a vida, o amor, os afectos, a compaixão, sofre. É inevitável. Até porque as pessoas que mais ama, as filhas, estão longe. Uma na Austrália, outra, muito mais longe, num hospital psiquiátrico.


Karin precisa desesperadamente de um espaço-tempo para viver e respirar. Marianne consegue despertar nela essa chama irrequieta, essa vontade de viver a sua própria vida, libertar-se das exigências insuportáveis do pai. Conquistará a sua autonomia em relação ao pai, que tenta o suicídio, de forma espectacular.

Johan fecha-se de novo no silêncio.

Marianne volta a casa e vai visitar a filha. Esta é, para mim, a cena mais tocante. Onde antes sentia uma grande distância, Marianne descobre, no olhar da filha, o milagre da comunicação.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:21


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D